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Leis e afins

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02
Mar17

O medo

Daniela Fradinho Ribeiro

"O medo vai ter tudo, tudo...

penso no que o medo vai ter

e tenho medo

que é justamente o que o medo quer..."

Alexandre O'Neill

 

Aquilo a que uns chamam de  lar, para outros é uma prisão. Aquilo a que uns desejam voltar no final do dia, outros desejam nunca regressar.  Não fazemos ideia de números exatos. Sabemos, contudo, que há inumeras pessoas que entrando em casa   não recebem um beijo ou um sorriso. Vivem na insegurança, na humilhação, nas variações de humor do companheiro/a. Não esperam calma, paz e harmonia. Têm gritos, violência sob todas as formas. Não é uma visão de um estrato social empobrecido. Desengane-se quem assim pensa. A violência doméstica é independente de qualquer estrato sócio-económico, sexo, cultura, raça, religião, local, cultura, profissão. É, claramente, uma forma que o agressor tem de impor à vitima a sua vontade, de a subjugar, privar ou dominar. Gritar e bater são uma manifestação ilegitima de poder, de controlo, de subordinação e/ou de imposição. E é verdade que, uma criança vítima de maus tratos (note-se que, em alguns ordenamentos juridicos uma palmada é suficiente para preencher um tipo legal de crime e, por via disso, levar alguém a ser condenado a uma pena privativa de liberdade) tem maiores probabilidades de vir a ser maltratante, a desenvolver inúmeros problemas psicológicos, de desenvolver sentimentos de limitação, inferioridade, medo, depressão,falta de auto-estima, entre outros. É um mito "uma palmada nunca fez mal a ninguém". Fez e faz. A violência é, acima de tudo uma demonstração de ignorância, o desconhecimento de como lidar ou reagir a um confronto. É a imposição de uma vontade sobre alguém, tendencialmente, mais fraco. Também é um mito "Entre marido e mulher ninguém mete a colher". Em 2015, 29 mulheres perderam a vida vítimas de violência doméstica. Muitos dos casos eram do conhecimento do meio onde se inseriam. Consequência dos movimentos feministas das décadas de 70 e 80, surgiram em Portugal instituicões de apoio à vitima (na altura centradas quase em exclusivo na vitimização da mulher).

Como é do conhecimento geral, a violência é um problema fortemente enraizado na cultura portuguesa. Era normal, banal e aceitável que um pai/ marido, tendo em conta a imagem de superioridade masculina que existia no país, a falta de informação, a ausência de escolaridade, e uma cultura política que assim o defendia, que fosse "dono e senhor" dos seus filhos e sua esposa, e portanto, podendo "educa-los á sua imagem". Felizmente, o tema da violência (seja doméstica, seja entre crianças e jovens) tem vindo a ganhar importância e relevo, unindo esforços politicos, instituicionais, administrativos, policiais. Várias iniciativas têm vindo, nos últimos anos, a ser aplicadas com o intuito de chamar a atenção para o problema. Nas escolas, os estudos demonstram que uma grande percentagem de jovens, consideram "normal" comportamentos violentos. Para breve (FINALMENTE!) está a introdução nas escolas de ensino/ partilha de cidadania, e, sobretudo, no que concerne à igualdade de género, vem colmatar uma lacuna há muito detetada, o que vem dar um grande (mas muito grande) passo na erradicação deste triste fenómeno. Compete-nos a nós, enquanto pais e educadores, ensinar (dando o exemplo) às crianças a valorizar o seu ser e os outros, a saber que a nossa liberdade termina onde começa a dos outros, que somos autónomos, independentes, merecedores de respeito. Acima de tudo, que todos nascemos para sermos felizes, mas que essa felicidade só de nós depende e que nada nem ninguém tem o poder de a roubar. 

 

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