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Leis e afins

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23
Fev17

A noite já não é o que era

Daniela Fradinho Ribeiro

Lembro-me de estudar até ir para o exame. Ininterruptamente. Toda a noite. Na mesa tinha café, coca-cola, redbull. Os olhos não fechavam, nem que quisessem, dada a quantidade de cafeina e afins. Terminava, ia tomar o pequeno almoço e dirigia-me para o exame. Acreditem que só quando parei de o fazer, comecei a ter realmente boas notas. Mas onde é que eu tinha a cabeça? Mas alguém no seu perfeito juízo acha que sem dormir tem algum sucesso? Bem, eu, na altura. Santa ignorância. Continuo a adorar estudar e trabalhar durante a noite, dada a tranquilidade e o silêncio. A diferença reside na consciência de que, efetivamente, preciso de dormir. Mais, os meus dias são uma correria, tenho os meus filhos, responsabilidades que não se tem na faculdade. Não tenho a minha mãe a trazer-me as refeições quando estudo, nem absolutamente nada em casa gira em torno da necessidade de o fazer. Lembro-me que em época de exames, a casa dos meus pais parava. Tudo se concentrava para esse objetivo. Havia mais silêncio, havia respeito, havia apoio ilimitado. E cheguei onde cheguei!! Agora não o posso fazer. Mas isto de se crescer tem muito que se lhe diga. Chego a casa mais morta que viva. E se mais morta que viva tenho ainda de trabalhar, o caos instala-se. Anteontem à noite tive de o fazer. A agenda torna-se curta quando queremos estar em todo o lado, fazer tudo e ajudar tudo e todos. Ser-se  super mulher tem dias. Deitei os meus filhos e fui trabalhar. Não fiquei até de madrugada, claro está. No dia seguinte, a escola não pára, a fome deles também não e o meu trabalho também não. Mas há fases de tal maneira dificeis de gerir, que chego a ter medo de mim própria. E o pior aconteceu. Lembrei-me que o meu carro estava um nojo andante. No meio do caos instalado na minha vida, essa constatação tornou-se de uma importância quase vital, vá-se lá entender! Parei para tirar os brinquedos dos meninos para a mala do carro. (Mãe que é mãe tem roupa, migalhas e brinquedos nas viaturas). Arranquei....com a porta traseira aberta... Em andamento ouvi um estrondo e pensei "esqueci-me da porta aberta"! Entre o ficar de boca aberta e o pânico da eventualidade de ficar sem porta, a 50 metros estava a estação de serviço onde ia deixar o carro. Entrei, saí do carro e continuei de boa aberta. E só pensava: a minha porta bateu sabe-se lá onde! Esqueci-me da porta aberta! Vi que tinha uma marca, mas nada de especial, curiosamente. Continuava com porta, mas em estado de choque com o esquecimento. Fui tomar café enquanto esperava que me limpassem o carro. Sinto uma sombra a aproximar-se. "Desculpe, a menina bateu-me!". Imaginem que fiquei congelada a pensar " Claro que tive de bater em qualquer coisa!".  Morri de vergonha. Não fugi, não me escondi. Mas pareceu! Ouvi o estrondo da porta beter em qualquer coisa e fiquei em choque. Parei mesmo à frente! Pormenor importante: Esqueci-me de ver onde a porta tinha batido. Aliás, nem me lembrei de tal coisa naqueles 50 metros que andei! Agora, o melhor. A minha porta foi bater num carro novo que um reboque descarregava para entregar ao novíssimo proprietário! Acho que arruinei a alegria dessa pessoa... Como é evidente assumi a minha responsabilidade e pedi mil desculpas. Mas o mais grave é que percebi perfeitamente o meu  estado fisico e psicológico. Foi o cansaço a provocar o esquecimento da porta aberta, a falta de reação ao impacto. Ontem trabalhei 12 horas, os meus filhos jantaram às 21h e sinto-me prestes a rebentar pelas costuras. E dou por mim a perguntar porque não tem o dia 48h...para poder fazer mais coisas, como ir ao ginásio, um curso de culinária para o qual me acabaram de convidar, tratar de mais recados, aceitar mais clientes e acima de tudo passar mais tempo com os meus filhos. Vá-se lá entender. Descansem e divirtam-se. Podemos ter tudo mas se não temos tempo para sermos felizes, isso vale de quê?

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